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Sempre considerei que tinha sorte com as pessoas que me apareciam na vida. Tenho um conjunto fenomenal da bons amigos, quase todos de há muitos anos (anos? décadas, devia dizer, que descreve melhor estas longevidades). Casei com um homem bom (e continua um homem bom, depois de termos descasado). Mas na verdade fiquei sempre numa certa zona de conforto, no meu mundo: os amigos do colégio, os amigos dos amigos do colégio, os namorados e namoradas das amigas e amigos (e depois os maridos e as mulheres da mesma pandilha), os amigos destes, as pessoas do CUPAV. Tirando escassas exceções, não fiz amigos no trabalho. Pessoas com que me dava muito bem, sim, mas amigos (uma categoria de eleição cheia de requisitos complicados para entrar), bom, não diria tanto. Sempre me impressionou como as pessoas com que me relaciono na política ou na comunicação social dizem de outros que são amigos, quando apenas se viram meia dúzia de vezes e têm uma relação perfeitamente casual e desligada. Eu posso dizer que gosto das pessoas, que me dou bem com elas, mas amigos, bem, faltam uma série de experiências mais vinculativas que os juramentos de sangue para chegarmos a tanto.

Adiante.

Na verdade, quando saí desta redoma, pelas redes sociais, pela blogosfera, pelos novos projetos, e me comecei a dar com mais pessoas, não corre muito bem. Podem ser pessoas interessantes, até intelectualmente mais estimulantes, com experiências que gosto de ouvir, aqui e ali dá-se o caso de gostar mesmo muito de alguns exemplares, mas muito raramente (existem só aqui e ali, lá está) são pessoas com que possamos estabelecer relações significantes. Há pessoas com valores que chocam em colisão frontal com os meus e e deflagra uma guerra termonuclear. Num caso ou noutro de fanatismo reforçado, estou firmemente convencida que, calhando terem nascido nas primeiras décadas do século XX na Alemanha ou na Rússia, teriam alegremente enveredado por carreira de algozes de Hitler ou de Stalin. Há mentira e dissimulação de uma dimensão que não se pode tolerar em relações pessoais. Há discursos e narrativas dissonantes das nossas, o que é natural e esperável para um é esotérico e incompreensível para outro. Há agendas pessoais que se cruzam e se sobrepõem a tudo. Há deslealdades e traiçoeirices e há almas para quem ser desleal e traiçoeiro é tão natural quanto respirar. Já encontrei pessoas que só posso qualificar de psicopatas. Outras, não chegando a esse patamar cimeiro, são má rés ainda assim. Não posso baixar a guarda – das vezes que o fiz correu mal. É um novo meio cansativo e pouco recompensador, que exige demasiado esforço para reduzidíssima retribuição – se alguma, que o objetivo é sobretudo usar os outros em benefício próprio, lá agora estabelecer relações pessoais enriquecedoras.

Eu, muito mal habituada que vinha da minha redoma, não me dou bem nestes ambientes. Aprecio estabilidade e solidez nas relações e nas pessoas. Gosto de espécimes humanos fáceis que eu consiga ler. Não gosto de jogos nem de quem se coloca em pedestais. Gosto de pessoas que se deixam encontrar. Gosto de boas almas para quem a palavra vale e significa o que lá é dito. Não gosto de cobardes nem de quem não diz o que quer e ao que vem. Não tolero crueldades ou leveza com o bem dos outros. Descarto afetos relutantes que só são dados tarde e a más horas. Não convivo com quem faz negócio da humilhação e do enxovalho dos outros quando estes se expõem, ou que participa em carneiradas de bullying aos antigos aliados quando estes precisam de proteção. Às tantas a única emoção que me resta pela maioria destes exemplares, além de um brutal cansaço, é ressentimento por me terem feito acreditar que eram pessoas límpidas e claras de quem eu podia gostar e em quem podia confiar. E odeio ter em mim emoções tóxicas.

Pelo que em se tratando de pessoas é mesmo uma volta de 360º. Nada me delicia mais que ouvir alguém que fala como eu, que tem os mesmos conceitos que eu, que parece que está na minha redoma desde sempre, que me faz regressar ao princípio.

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Magda Resende Ferro, às voltas com alguma coisa (que felizmente desconheço)

Uma senhora chamada Magda Resende Ferro, da Universidade Católica Portuguesa, pessoa que eu já tinha retirado do meu facebook, apanhou-me no mural de uma outra pessoa quando eu estava a protestar pela forma como se estava a criticar ‘uma miúda’ (Greta Thunberg). A crítica, evidentemente, era por ela ser ‘miúda’; para evidenciar que faço as mesmas críticas quando os adultos abusam de ‘miúdos’, i.e., rapazes, coloquei os links de uma coluna de opinião minha e de um post de facebook onde repudiava tratamento dado a adolescentes rapazes. Mas a boa da Magda Resende Ferro entendeu meter-se na conversa e afirmar-me uma pessoa ‘perdida’, obcecada com o #metoo, com reações violentas e ‘vendo ataques ao feminino em tudo’. E, apesar de dizer que não valia a pena perder tempo comigo, pôs dois comentários para eu ver, a seguir enviou-me uma mensagem via messenger e denunciou o post seguinte que eu fiz a gozar com ela. Que foi retirado pelo facebook – obrigada, facebook, deixas passar discurso de ódio em barda, fake news, ajudas a dar cabo de processos eleitorais, violas a privacidade dos teus utilizadores, mas apagas um post onde eu denuncio a boa conduta da querida Magda, que por acaso até era, esse sim, um ataque sexista e anti feminista. Way to go, facebook.

Portanto, façamos aqui uma pausa e apreciemos a postura de Magda Resende Ferro. Como o facebook está muito puritano, então claro que a Magdazinha não tem nenhuma obsessão comigo, nada disso. Andou à cata de mim no mural de outras pessoas para ver se me conseguia dar a saber a sua opinião sobre mim (interessa-me deveras; isso e a longevidade do bicho da madeira), foi ver o que eu escrevi sobre ela, depois de lhe dar uma desanda como resposta em comentários manda-me uma mensagem, oh god, mas não tem mais nada que fazer na vida?

A querida Magda Resende Ferro, docente universitária, também é intelectualmente muito séria. Vê uma crítica minha por causa de uma adolescente mas representa a minha crítica como um absurdo de feminismo. Seriíssssssssssima, a senhora. Ou intelegentíssssssssima. Certo, facebook? Pois é.

Também tem piada. A dita Magda sobreviveu à minha obsessão pelo #metoo durante mais de um ano, e ao resto dos feminismos durante não sei quanto tempo mais, e até se dizia grande apreciadora das minhas opiniões. Só mudou quando eu impliquei com as suas opiniões. Também é uma muito pessoa consistente, não é, facebook?

Mais piada: esta Magda Resende Ferro costuma falar muito contra o politicamente correto. Como todas as pessoas que vêem politicamente correto em tudo, e ficam muito indignadas, quando o discurso politicamente incorreto é contra elas, deixam logo de ser grandes amantes da liberdade de expressão livre do politicamente correto.

Uma senhora admirável, em suma.

Publico este post aqui, porque não levo a bem que me apaguem posts em que eu denuncio comportamentos errados que me eram dirigidos, e aqui fica a salvo do facebook e acessível pelo google. E a história de stalkers, pessoas intelectualmente desonestas, inconsistentes e que fazem por apagar as palavras de outrem merece sempre ser contada.

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Factos alternativos de sócrates

Vi ontem à noite a entrevista de sócrates. Ora bem:

1. Fiquei com mixed feelings com a utilidade da coisa. Percebo o interesse jornalístico da entrevista, e a circunspeção do entrevistador que quer deixar o entrevistado contar a sua versão da história, mas a verdade é que o resultado foi penoso. Vítor Gonçalves pôs sócrates na ordem algumas vezes, e até acredito que haja alguma dificuldade em confrontar um mentiroso impenitente que insiste em viver numa realidade alternativa. Mas para quê dar tempo de antena àquele exercício de aldrabice escancaradamente evidente sem que tal tenha sido chamado de aldrabice?

2. Adorei. Achei lindo, arrebatador mesmo, quando sócrates, mostrando as suas ‘provas’ – para contrapor às ‘alegações’ do MP -, nos quis convencer que umas palavras de Armando Vara eram credíveis para o que quer que fosse. Ou que não fora ele a escolher Vara, mas o ministro das finanças. (A carta de demissão de Campos e Cunha que estava em casa dele conta outra versão, mas a sócrates interessam mais os factos alternativos). Ou que Santos Silva lhe tinha emprestado quantias pequenas. (??????) Ou, a minha preferida, querendo mostrar o papelinho da abertura de uma conta de Santos Silva como provando o que quer que fosse. E argumentando, aparentemente sem estar charrado, que o MP nunca dissera a ninguém que as contas estavam em nome de Santos Silva e não de sócrates.

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‘Eat Shit and Survive’

Estar em casa com uma criança adoentada dá-me para isto: por-me aos pulos para grande educadora do povo. Pelo que aqui vai um bocadinho da minha dissertação de mestrado – leitura compulsória para todos os que andam no meu blogue – sobre a nostalgia da época maoista que varreu a China na última década do século XX. Ou, como os amigos lhe chamam, ‘the Mao craze’. Um subcapítulo de um capítulo com intitulado «’Eat Shit and Survive’: Ondas de choque da Revolução Cultural».

Ah: ‘xia xiang’ é o petit nom de ‘Shang shan, xia xiang’ (上山下乡) – ‘Subir à Montanha, Descer à Aldeia’ – movimento que levou, durante a Revolução Cultural, cerca de 17 milhões de jovens das cidades chinesas para as zonas rurais, para serem devidamente educados no fervor revolucionário pelos camponeses (que os jovenzinhos depois vieram a descobrir serem uns tremendos reacionários que não gostavam nada das ideias coletivistas radicais de Mao, mas isso é outra história.) E ‘zhiqing’ é o nome por que ficaram conhecidos os ditos jovens citadinos – os zhishi qingnian (知识青年), literalmente jovens educados. Continuar a ler

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O Caso Spotlight e divagações

American actor Mark Ruffalo poses during the photocall for the movie " Spotlight "  at the 72nd Venice Film Festival, northern Italy September 3, 2015.  REUTERS/Stefano Rellandini

American actor Mark Ruffalo poses during the photocall for the movie ” Spotlight ” at the 72nd Venice Film Festival, northern Italy September 3, 2015. REUTERS/Stefano Rellandini

Fiquei desconcertada com esta crítica de Eurico de Barros ao filme O Caso Spotlight. Não exatamente pela apreciação do filme, ainda que também não concorde com ela. Não será um filme life changing – mas até pode ser, porque é um valente murro no estômago na forma de vermos a Igreja transformada numa fábrica de destruir crianças e adolescentes e, além disso, de uma máquina de proteção de abusadores sexuais de crianças que não pode se não ser aviltante para alguém católico (eu, por acaso) ou com valores filhos da civilização judaico-cristã – mas é um filme que conta de forma muito competente, e com interpretações irrepreensíveis, uma ótima história. E sendo eu uma pessoa que adora histórias (sou boa ouvinte, de pessoas interessantes e inteligentes of course, por alguma coisa), e que considero que por mais encantos formais que tenham um filme (ou um livro) não se aguenta sem uma boa história, isto já é dizer muito de O Caso Spotlight. Prefiro filmes assim do que filmes pomposos que pretendem sobretudo mostrar a genialidade do ponto de vista do autor sobre o mundo e que a maior parte das vezes não passam de exercícios de vaidade.

Mas lá no fim do texto confesso que me escapa a relevância de fazer equiparar – como se fossem fenómenos de igual dimensão ou maldade – a invenção de casos de abusos para exigir indemnizações à Igreja ou (suspiro) a implantação de memórias falsas (em adultos) de abusos sexuais ocorridos na infância. Até se dá o exemplo de um filme de Oliver Stone – quem mais? – sobre estas memórias falsas e injustas. (Não será mais relevante fazer um filme contando como nos meandros da Igreja – porque O Caso Spotlight conta a investigação jornalística que desmascarou os abusos e o encobrimento pela hierarquia católica em Boston – se lidou com esta questão?)

Ora andei a estudar nos últimos anos, para a dissertação de mestrado (cujo powerpoint para a defesa devia estar a preparar neste exato momento em vez de escrever posts) a memória de trauma, incluindo a forma como a memória traumática se fixa e é armazenada no cérebro. Esta polémica das supostas memórias de abusos sexuais na infância implantadas por psiquiatras e psicólogos malévolos surgiu na década de 1980, quando – e evidentemente para desacreditar – começaram a aparecer relatos sobretudo de mulheres (essas histéricas mentirosas) dando conta de terem sido vítimas de abusos sexuais, geralmente em contexto familiar, durante a infância e muitas vezes continuadamente. A polémica tinha razão de ser porque se questionava, por exemplo, se este tipo de memórias podiam servir de prova em tribunal.

A teoria psicanalítica considerava que as memórias traumáticas eram guardadas no cérebro e esquecidas, reaparecendo difusamente depois em forma de pesadelos, flashbacks e através da repetição compulsiva e involuntária do evento traumático. Mas estariam guardadas intactas no cérebro e podiam ser acedidas mais tarde através da hipnose ou de alguma catarse provocada por medicação. Entretanto já muito se estudou e as conclusões são escassas. Bessel van der Kolk, que investiga a neurobiologia do cérebro face ao trauma, fez um estudo famoso (mas polémico e contestado) que aparentemente confirma esta integridade das memórias armazenadas no cérebro. Mas permanecem abertas imensas questões, desde logo a razão porque algumas vítimas de trauma comprovado o lembram muito vividamente e outras não o lembram de todo. Muito em resumo, sabem-se algumas coisas. O trauma e a memória traumática deixam, de facto, uma cicatriz no cérebro, o que se comprova ao nível da neurobiologia. As memórias de eventos emocionalmente intensos tendem a ser mais fiáveis e a perdurarem mais, mas níveis de stress altamente intensos podem bloquear a fixação normal da memória, tornando-a de difícil acesso ou fragmentada. As memórias traumáticas são diferentes das não traumáticas: as traumáticas centram-se, por exemplo, nas emoções da vítima no momento (o medo, desde logo, a sensação de descontrolo sobre o próprio destino,…), no tom de voz do agressor, nos olhos,…; enquanto que as memórias não traumáticas são mais descritivas, mais factuais, mais em estilo reportagem (quantas pessoas, roupas, localização espacial,…). (É por isto que quando me dizem que os testemunhos do caso Casa Pia não são válidos porque as vítimas não conheciam as divisões e a morada da casa onde diziam terem sido abusados, eu respondo que de facto não foi isso que ficou registado na memória das vítimas e muito estranho seria se conseguissem descrever a casa como se lá tivessem sido visitas.) E no que toca a crianças não se sabe de todo, porque se já há muitas dúvidas quanto à fixação e armazenamento das memórias em adultos, a memória na infância é diferente, o mundo das crianças está impregnado de fantasia e desconhecimento do mundo, e todos sabemos que perdemos a esmagadora maioria das memórias da infância. Mas o que nunca se concluiu (e estudou-se) é que as memórias não se podem recuperar ou que as memórias recuperadas são falsas.

Pelo que Oliver Stone – que não é desconhecido das teorias alucinadas – até pode ter feito um filme interessante sobre alguém sugestionável que se convenceu que havia sido abusado na infância (não vi o filme referido). Mas é absolutamente irresponsável que num assunto sensível como o abuso sexual de crianças se coloque como fenómeno significativo e fiável uma onda de memórias falsas implantadas por gente maldosa nos cérebros fracos das senhoras (geralmente são senhoras) que lhes pagam as consultas.

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Todo o tempo do mundo

Não sei o que António Costa (e o PS) pretendem com estas conversas com o PCP e com o BE, nem me é muito importante saber. Curioso estou com a reunião marcada para amanhã com Passos Coelho e, presumo, Paulo Portas. Será o teste definitivo, último, da utilidade que resta a esta pobre III República para o bem comum. Se dali não sair um compromisso, de qualquer base ou incidência, que permita estabilidade a médio prazo na ação governativa então estes três, independentemente do grau de culpa de cada um, não servem para nada. Juntam-se à irrelevância do inquilino de Belém.

Não, não temos todo o tempo do mundo.

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O tempo esse grande escultor, como dizia a Marguerite Yourcenar

relógios

Gosto dos marcos que são as datas. Os anos – e às vezes até os meses – depois de determinado evento ajudam-me a arrumar o passado e a decidir o que vou reclamar do futuro (com o meu precioso labor, claro, que não há futuros grátis). As datas são boas para decidir o que é, afinal, perene na minha vida e o que já caducou. O que é motivo de undying satisfaction e o que não gera nada que não dissabores. Aquilo por que que o meu temperamento persistente vai continuar a disparar para todos os lados para proteger e obter e manter e aquilo por que já não me dou ao trabalho do ato mais mecanizado. Toda a gente garante com grande convicção que o tempo é o mais severo e certeiro juiz – e têm razão. Os livros bons são os que resistem ao tempo, os filmes idem, as ideias, as ideologias, a moda, as carteiras – tudo. Para mim o critério do tempo é sobretudo válido para as pessoas. Há as que estão e sempre estiveram e vão ficar para sempre. As que por magia aparecem sempre quando eu preciso. As que estiveram mas afinal não marcaram e misturaram-se na multidão. Há as surpresas que nos iluminam. E há as que, apesar de muitas promessas, never deliver – ou, como se ouve nos comentários desportivos, falham na concretização. E, pior, há as tóxicas que, de cada vez que calhamos aproximar-nos, lá temos inundação de agravos. Também há, claro, as indiferentes. Nada melhor que o tempo e os marcos do tempo para catalogar cada pessoa corretamente e, se necessário, arrumá-la definitivamente na prateleira mais alta da estante, junto dos livros que não nos arrebataram. Ou, pelo contrário, colocá-la nos livros de uso frequente que estão na mesa de cabeceira.

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