O tempo esse grande escultor, como dizia a Marguerite Yourcenar

relógios

Gosto dos marcos que são as datas. Os anos – e às vezes até os meses – depois de determinado evento ajudam-me a arrumar o passado e a decidir o que vou reclamar do futuro (com o meu precioso labor, claro, que não há futuros grátis). As datas são boas para decidir o que é, afinal, perene na minha vida e o que já caducou. O que é motivo de undying satisfaction e o que não gera nada que não dissabores. Aquilo por que que o meu temperamento persistente vai continuar a disparar para todos os lados para proteger e obter e manter e aquilo por que já não me dou ao trabalho do ato mais mecanizado. Toda a gente garante com grande convicção que o tempo é o mais severo e certeiro juiz – e têm razão. Os livros bons são os que resistem ao tempo, os filmes idem, as ideias, as ideologias, a moda, as carteiras – tudo. Para mim o critério do tempo é sobretudo válido para as pessoas. Há as que estão e sempre estiveram e vão ficar para sempre. As que por magia aparecem sempre quando eu preciso. As que estiveram mas afinal não marcaram e misturaram-se na multidão. Há as surpresas que nos iluminam. E há as que, apesar de muitas promessas, never deliver – ou, como se ouve nos comentários desportivos, falham na concretização. E, pior, há as tóxicas que, de cada vez que calhamos aproximar-nos, lá temos inundação de agravos. Também há, claro, as indiferentes. Nada melhor que o tempo e os marcos do tempo para catalogar cada pessoa corretamente e, se necessário, arrumá-la definitivamente na prateleira mais alta da estante, junto dos livros que não nos arrebataram. Ou, pelo contrário, colocá-la nos livros de uso frequente que estão na mesa de cabeceira.

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É o que dá a falta de rega nas ideias e métodos do PS

rosa murcha

Conclui esta semana (depois de prolongadas suspeitas de várias doenças do foro psicológico) que as cabecinhas socialistas enlouqueceram de vez. Foi Ferro Rodrigues que veio afirmar candidamente que o PS defende mesmo de há quatro anos, mais mês menos mês da altura em que faliram o país. E foi o pré-programa (e mais sobre esta coisa dos pré-programas depois) do PS que vem afiançar-nos que a política que nos trouxe uma década de estagnação e, a seguir, bancarrota, é a mesma que nos vai fazer enriquecer em três tempos.

Como estão muito convencidos que os eleitores são burros de todo (e, bem, os eleitores votaram duas vezes em sócrates, pelo que já mostraram em tempos fraco discernimento), nem se dão ao trabalho de mudar qualquer coisa no discurso e nos métodos. Acham-nos tão patinhos que, apesar de já termos levado pancada à séria à conta das escolhas do PS, vamos continuar a querer levar pancada do PS – porque, todos sabemos, o mesmo discurso e os mesmos métodos levam às mesmas consequências.

Nas últimas eleições, o eleitor desencantado não se deu ao trabalho de abandonar os mais interessantes afazeres da sua vida para ir até à escola ou junta de freguesia para votar no PS. Nem com o incentivo de poder aparecer na tv (à entrada ou saída dos locais de voto) entregue às boas causas de salvar a paz no mundo, terminar a crise dos refugiados ou alimentar todas as crianças de África (com o voto, pois claro). Já tinha percebido (finalmente!) a inutilidade e futilidade e desonestidade do discurso do PS. E, da próxima vez, vai suceder exatamente o mesmo.

(As próximas eleições vão ser uma competição entre PS e coligação para ver qual dos blocos produziu menos desencantados.)

Mas o PS, aparentemente, pensa que acorreram todos a votar, esperançosos que o PS apoteoticamente desta vez estivesse à altura (do que quer que seja que o PS pode estar à altura). E que o eleitor continua entusiasmado como na primeira hora do pós santanismo. (Os egos insuflados são tramados.) Em suma: pelo PS ainda não perceberam que os encantos do PS e das suas propostas não são suficientes para cobrir tamanho manancial de burrice, estupidez e falta de respeito pelos eleitores.

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tragicomédia grega

Buddha in Wat Arun Thailand

Regressando aos amorzinhos gregos, que por estes dias andaram com a bazófia do costume ameaçando que fariam default aos pagamentos do empréstimo do FMI se a UE não enviasse mais daquela coisa que sócrates gosta muito para Atenas. (E como se ainda tivessem margem para ameaçar ou exigir o que seja.) A boa fé, a transparência, o respeito mútuo e a honestidade costumam ter sucesso quando se trata de negociar e não é possível conceber estratégia mais descabelada do que a grega desde que o syriza ganhou eleições. A única conclusão que se pode tirar é a de que quiseram hostilizar e insultar a outra parte. Toda a boa vontade, toda a paciência, todas as novas oportunidade e todos os gestos de, digamos, reconciliação por parte da UE foram recebidos com desprezo, ignorância e até má criação ostensiva. Isto tudo enquanto o governo grego mentia repetidamente e prometia as míticas – tão reais como o Minotauro – contrapartidas para novo empréstimo da UE que, oh que surpresa, nunca chegou a apresentar. Toda a gente vê isso.

E o mais risível nisto tudo é que o governo grego nem percebe que pela UE se está mais perto de se lhe dar estalos do que dinheiro. Que as opções benevolentes que eram oferecidas a Grécia há uns meses (quando a paciência – e o gosto geral na humanidade de não ser insultado – ainda não estavam esfrangalhados) já não estão disponíveis agora, porque a Grécia tem de provar muito mais que merece oportunidades (porque já deu cabo de tantas). Que ninguém acredita nas reedições das conversetas do costume (e nem se dão ao trabalho de variar o guião), porque se só proferiu mentiras e criou equívocos até agora, é evidente que comportamentos iguais aos anteriores serão filhos amantíssimos de novos equívocos e de novas mentiras e nem vale a pena a UE dar-se ao trabalho de lhes responder. Que só o facto de o governo grego agir como se não tivesse estado meses a insultar quem com eles negoceia, e aja como se as relações ainda fossem límpidas e distantes de mal entendidos, dá vontade de espetar alfinetes em qualquer grego que nos apareça à frente. E, por fim, que ninguém na UE vai correr o risco de dar nova oportunidade à Grécia para levar com igualmente nova dose de má criação e ser mais uma vez desprezada; que só vem nova oportunidade se houver clareza cristalina e se a Grécia der garantias explícitas (e aquelas alminhas nunca se cansam de fazer o contrário) de que histerias e ofensas não é o que se seguirá.

A comunicação social europeia, pelo seu lado, podia deixar de estar embasbacada com a proficiência de Varoufakis em teoria de jogos, como se tal especialidade lhe desse algum insight sobre forma de negociar. Teoria de jogos, posso garantir, é uma simplificação que de modo nenhum introduz a variável ‘natureza humana’. Era mais provável Varoufakis ser bem sucedido como especialista nas Quatro Nobres Verdades do budismo theravada.

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Diálogos de Morfeu

dialogues paradise

Para quem quiser ler algo verdadeiramente surreal à noite antes de ir dormir, a gerência da farmácia recomenda o Dialogues in Paradise da Can Xue (ou qualquer outro livro de contos da autora). São contos pequenos – e ainda bem porque não percebemos nada. (Tenho o romance Five Spice Street lá em casa (im)pacientemente a aguardar leitura na minha mesa de cabeceira, mas ainda não me decidi a lê-lo, que não sei se aguento duzentas páginas inteiras de incompreensões.) Com a Can Xue não ficamos seguros de ter entendido as metáforas. Quando pensamos que até compreendemos, sobram várias pontas soltas que não sabemos se estão lá por razões estilísticas se até têm algum significado – marginal ou, pior ainda, fulcral. Ficamos com a ideia de que há informação que não está dita – mas, hélas, humildemente reconhecemos que estamos à nora quanto a descobrir se a informação foi a autora que não deu (não pôde, quis malevolamente torturar os seus leitores adoráveis, whatever), se é a própria história que tem estes hiatos de informação ou se somos nós que deveríamos contribuir com alguma informação para o processo (um vislumbre ou outro da realidade chinesa, por exemplo). As perguntas que o nosso espírito vai colocando ao texto ficam invariavelmente e irritantemente sem resposta. E quando finalmente pensamos que estamos a perceber a Can Xue, de cada uma dessas vezes a autora troca-nos as voltas e lá reconhecemos que estamos no (desesperante) ponto inicial.

Este espesso véu de incompreensão não retira todo o fascínio à leitura mas, claro, cansa (algum dia, se calhar, de vez). A seguir a isto quase somos tentados a pegar num imbecil page turner do Ken Follet, onde tudo é óbvio e fácil e ganhamos saudades do mistério e da subtileza.

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O sexismo benevolente, ou dois idiotas

Leio no Observador que dois psicólogos investigadores de Boston determinam que as “atitudes amistosas e cavalheirescas”, minha mãe ensinou-mas como gestos de boa educação, afinal servem para “mascarar chauvinismo e padronizar pontos de vista”, sendo sinais de “sexismo benevolente”.

Minhas senhoras, a partir de agora, já sabem, quando estiverem a entrar no prédio tenham cuidado que eu vou arremeter pela porta dentro em jeito de carga de ombro!

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This is the end


My only friend, the end

No safety or surprise, the end

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desencontros

Jinnah_Gandhi

Esta relação da Índia e do Paquistão depois da partição é uma relação de desencontros if ever there was one. Daquelas situações em que já não se sabe o que fazer, se há alguma coisa a fazer e a recuperar e, havendo, se vale a pena e leva a algum lado fazer. Quem criou mal entendidos e o ambiente onde os mal entendidos proliferam parece querer apenas continuar a (des)conversar – e um modo de comunicação direto e descomplicado é essencial mesmo nas relações entre países menos mutuamente traumatizados – sem que nada se altere. O que é insustentável e causa danos. Era heaven on Himalaias que o desequilíbrio provocado pela China – nem que fosse levada apenas pelas suas próprias complicações muçulmanas no Xinjiang – conseguisse o paradoxo de algum equilíbrio nesta parte da Ásia. Pelo menos, para começar, comunicação sã. Vamos ver se estão dispostos a isso.

‘Interests shift, however. China needs Pakistan on another front now. This month a Uighur suicide bomber killed as many as eight people in the volatile Chinese region of Xinjiang, near the border of Pakistan. It was the latest in a series of attacks by Muslim Uighurs resentful of domination by the Han Chinese. Some Uighurs have embraced jihadi Islam, an ideology for which plentiful schooling and terrorist training is available in both Pakistan and Afghanistan. In this light, reining in the Taliban looks a little more attractive to the Chinese than it once did. And, as the United States learned long ago, if you want to do something about the Taliban, you’d better do something about Pakistan.’

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