Diálogos de Morfeu

dialogues paradise

Para quem quiser ler algo verdadeiramente surreal à noite antes de ir dormir, a gerência da farmácia recomenda o Dialogues in Paradise da Can Xue (ou qualquer outro livro de contos da autora). São contos pequenos – e ainda bem porque não percebemos nada. (Tenho o romance Five Spice Street lá em casa (im)pacientemente a aguardar leitura na minha mesa de cabeceira, mas ainda não me decidi a lê-lo, que não sei se aguento duzentas páginas inteiras de incompreensões.) Com a Can Xue não ficamos seguros de ter entendido as metáforas. Quando pensamos que até compreendemos, sobram várias pontas soltas que não sabemos se estão lá por razões estilísticas se até têm algum significado – marginal ou, pior ainda, fulcral. Ficamos com a ideia de que há informação que não está dita – mas, hélas, humildemente reconhecemos que estamos à nora quanto a descobrir se a informação foi a autora que não deu (não pôde, quis malevolamente torturar os seus leitores adoráveis, whatever), se é a própria história que tem estes hiatos de informação ou se somos nós que deveríamos contribuir com alguma informação para o processo (um vislumbre ou outro da realidade chinesa, por exemplo). As perguntas que o nosso espírito vai colocando ao texto ficam invariavelmente e irritantemente sem resposta. E quando finalmente pensamos que estamos a perceber a Can Xue, de cada uma dessas vezes a autora troca-nos as voltas e lá reconhecemos que estamos no (desesperante) ponto inicial.

Este espesso véu de incompreensão não retira todo o fascínio à leitura mas, claro, cansa (algum dia, se calhar, de vez). A seguir a isto quase somos tentados a pegar num imbecil page turner do Ken Follet, onde tudo é óbvio e fácil e ganhamos saudades do mistério e da subtileza.

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O sexismo benevolente, ou dois idiotas

Leio no Observador que dois psicólogos investigadores de Boston determinam que as “atitudes amistosas e cavalheirescas”, minha mãe ensinou-mas como gestos de boa educação, afinal servem para “mascarar chauvinismo e padronizar pontos de vista”, sendo sinais de “sexismo benevolente”.

Minhas senhoras, a partir de agora, já sabem, quando estiverem a entrar no prédio tenham cuidado que eu vou arremeter pela porta dentro em jeito de carga de ombro!

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This is the end


My only friend, the end

No safety or surprise, the end

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desencontros

Jinnah_Gandhi

Esta relação da Índia e do Paquistão depois da partição é uma relação de desencontros if ever there was one. Daquelas situações em que já não se sabe o que fazer, se há alguma coisa a fazer e a recuperar e, havendo, se vale a pena e leva a algum lado fazer. Quem criou mal entendidos e o ambiente onde os mal entendidos proliferam parece querer apenas continuar a (des)conversar – e um modo de comunicação direto e descomplicado é essencial mesmo nas relações entre países menos mutuamente traumatizados – sem que nada se altere. O que é insustentável e causa danos. Era heaven on Himalaias que o desequilíbrio provocado pela China – nem que fosse levada apenas pelas suas próprias complicações muçulmanas no Xinjiang – conseguisse o paradoxo de algum equilíbrio nesta parte da Ásia. Pelo menos, para começar, comunicação sã. Vamos ver se estão dispostos a isso.

‘Interests shift, however. China needs Pakistan on another front now. This month a Uighur suicide bomber killed as many as eight people in the volatile Chinese region of Xinjiang, near the border of Pakistan. It was the latest in a series of attacks by Muslim Uighurs resentful of domination by the Han Chinese. Some Uighurs have embraced jihadi Islam, an ideology for which plentiful schooling and terrorist training is available in both Pakistan and Afghanistan. In this light, reining in the Taliban looks a little more attractive to the Chinese than it once did. And, as the United States learned long ago, if you want to do something about the Taliban, you’d better do something about Pakistan.’

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A segunda frente

Hoje de manhã ouvi nos noticiários que o Parlamento grego irá criar uma comissão parlamentar de inquérito para apuramento de reparações de guerra devidas pela ocupação alemão do estado helénico na II Grande Guerra.

Esta é uma questão para mim muito mais importante do que todas as outras que preenchem os espaços de informação desde a vitória do Syriza. Afinal, passados mais de 69 anos desde a capitulação dos exércitos alemães aos aliados, haverá ainda contas para saldar?

A acompanhar.

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Undisputed

A recente entronização de Alexis Tsipras  – um primeiro-ministro mais novo do que eu! Já não bastava o meu filho mais velho que com 14 anos está praticamente da minha altura… – tem levado muito (e boa) gente a fazer comentários sobre uma certa desgréciaaça (isto da desgrécia foi publicado num jornal em Espanha). Ora esta eleição, sob qualquer prisma, é sempre positiva para o burgo nacional: se a Europa dogmática se encolher, a seguir vamos nós exigir de mão estendida  o mesmo tratamento – não pagamos e dêem cá mais; se o Alexis e o wonderboy das Finanças se virem metidos numa daquelas alhadas que nem a Virgem os safa, será uma excelente altura para os Passos desta vida (e se calhar os Costas também) poderem mais uma vez reafirmar que nós não somos a Grécia – e já agora uma ajuda suplementar para os bons alunos vinha a calhar.

Também há quem chame a isto pragmatismo.

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Tambor de revólver

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Vamos lá, que hoje é sexta-feira. Às vezes apetece tudo, outras tantas nem por isso. É um pouco como o tambor do revólver: tem bala ou não tem? Ou como a Quadrilha do Carlos Drummond de Andrade, todos tinham, efetivamente, nada. Menos a Lili. Sobrou-lhe o tal Fernandes.

Amanhã é sábado.

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