‘Eat Shit and Survive’

Estar em casa com uma criança adoentada dá-me para isto: por-me aos pulos para grande educadora do povo. Pelo que aqui vai um bocadinho da minha dissertação de mestrado – leitura compulsória para todos os que andam no meu blogue – sobre a nostalgia da época maoista que varreu a China na última década do século XX. Ou, como os amigos lhe chamam, ‘the Mao craze’. Um subcapítulo de um capítulo com intitulado «’Eat Shit and Survive’: Ondas de choque da Revolução Cultural».

Ah: ‘xia xiang’ é o petit nom de ‘Shang shan, xia xiang’ (上山下乡) – ‘Subir à Montanha, Descer à Aldeia’ – movimento que levou, durante a Revolução Cultural, cerca de 17 milhões de jovens das cidades chinesas para as zonas rurais, para serem devidamente educados no fervor revolucionário pelos camponeses (que os jovenzinhos depois vieram a descobrir serem uns tremendos reacionários que não gostavam nada das ideias coletivistas radicais de Mao, mas isso é outra história.) E ‘zhiqing’ é o nome por que ficaram conhecidos os ditos jovens citadinos – os zhishi qingnian (知识青年), literalmente jovens educados. Continuar a ler

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O Caso Spotlight e divagações

American actor Mark Ruffalo poses during the photocall for the movie " Spotlight "  at the 72nd Venice Film Festival, northern Italy September 3, 2015.  REUTERS/Stefano Rellandini

American actor Mark Ruffalo poses during the photocall for the movie ” Spotlight ” at the 72nd Venice Film Festival, northern Italy September 3, 2015. REUTERS/Stefano Rellandini

Fiquei desconcertada com esta crítica de Eurico de Barros ao filme O Caso Spotlight. Não exatamente pela apreciação do filme, ainda que também não concorde com ela. Não será um filme life changing – mas até pode ser, porque é um valente murro no estômago na forma de vermos a Igreja transformada numa fábrica de destruir crianças e adolescentes e, além disso, de uma máquina de proteção de abusadores sexuais de crianças que não pode se não ser aviltante para alguém católico (eu, por acaso) ou com valores filhos da civilização judaico-cristã – mas é um filme que conta de forma muito competente, e com interpretações irrepreensíveis, uma ótima história. E sendo eu uma pessoa que adora histórias (sou boa ouvinte, de pessoas interessantes e inteligentes of course, por alguma coisa), e que considero que por mais encantos formais que tenham um filme (ou um livro) não se aguenta sem uma boa história, isto já é dizer muito de O Caso Spotlight. Prefiro filmes assim do que filmes pomposos que pretendem sobretudo mostrar a genialidade do ponto de vista do autor sobre o mundo e que a maior parte das vezes não passam de exercícios de vaidade.

Mas lá no fim do texto confesso que me escapa a relevância de fazer equiparar – como se fossem fenómenos de igual dimensão ou maldade – a invenção de casos de abusos para exigir indemnizações à Igreja ou (suspiro) a implantação de memórias falsas (em adultos) de abusos sexuais ocorridos na infância. Até se dá o exemplo de um filme de Oliver Stone – quem mais? – sobre estas memórias falsas e injustas. (Não será mais relevante fazer um filme contando como nos meandros da Igreja – porque O Caso Spotlight conta a investigação jornalística que desmascarou os abusos e o encobrimento pela hierarquia católica em Boston – se lidou com esta questão?)

Ora andei a estudar nos últimos anos, para a dissertação de mestrado (cujo powerpoint para a defesa devia estar a preparar neste exato momento em vez de escrever posts) a memória de trauma, incluindo a forma como a memória traumática se fixa e é armazenada no cérebro. Esta polémica das supostas memórias de abusos sexuais na infância implantadas por psiquiatras e psicólogos malévolos surgiu na década de 1980, quando – e evidentemente para desacreditar – começaram a aparecer relatos sobretudo de mulheres (essas histéricas mentirosas) dando conta de terem sido vítimas de abusos sexuais, geralmente em contexto familiar, durante a infância e muitas vezes continuadamente. A polémica tinha razão de ser porque se questionava, por exemplo, se este tipo de memórias podiam servir de prova em tribunal.

A teoria psicanalítica considerava que as memórias traumáticas eram guardadas no cérebro e esquecidas, reaparecendo difusamente depois em forma de pesadelos, flashbacks e através da repetição compulsiva e involuntária do evento traumático. Mas estariam guardadas intactas no cérebro e podiam ser acedidas mais tarde através da hipnose ou de alguma catarse provocada por medicação. Entretanto já muito se estudou e as conclusões são escassas. Bessel van der Kolk, que investiga a neurobiologia do cérebro face ao trauma, fez um estudo famoso (mas polémico e contestado) que aparentemente confirma esta integridade das memórias armazenadas no cérebro. Mas permanecem abertas imensas questões, desde logo a razão porque algumas vítimas de trauma comprovado o lembram muito vividamente e outras não o lembram de todo. Muito em resumo, sabem-se algumas coisas. O trauma e a memória traumática deixam, de facto, uma cicatriz no cérebro, o que se comprova ao nível da neurobiologia. As memórias de eventos emocionalmente intensos tendem a ser mais fiáveis e a perdurarem mais, mas níveis de stress altamente intensos podem bloquear a fixação normal da memória, tornando-a de difícil acesso ou fragmentada. As memórias traumáticas são diferentes das não traumáticas: as traumáticas centram-se, por exemplo, nas emoções da vítima no momento (o medo, desde logo, a sensação de descontrolo sobre o próprio destino,…), no tom de voz do agressor, nos olhos,…; enquanto que as memórias não traumáticas são mais descritivas, mais factuais, mais em estilo reportagem (quantas pessoas, roupas, localização espacial,…). (É por isto que quando me dizem que os testemunhos do caso Casa Pia não são válidos porque as vítimas não conheciam as divisões e a morada da casa onde diziam terem sido abusados, eu respondo que de facto não foi isso que ficou registado na memória das vítimas e muito estranho seria se conseguissem descrever a casa como se lá tivessem sido visitas.) E no que toca a crianças não se sabe de todo, porque se já há muitas dúvidas quanto à fixação e armazenamento das memórias em adultos, a memória na infância é diferente, o mundo das crianças está impregnado de fantasia e desconhecimento do mundo, e todos sabemos que perdemos a esmagadora maioria das memórias da infância. Mas o que nunca se concluiu (e estudou-se) é que as memórias não se podem recuperar ou que as memórias recuperadas são falsas.

Pelo que Oliver Stone – que não é desconhecido das teorias alucinadas – até pode ter feito um filme interessante sobre alguém sugestionável que se convenceu que havia sido abusado na infância (não vi o filme referido). Mas é absolutamente irresponsável que num assunto sensível como o abuso sexual de crianças se coloque como fenómeno significativo e fiável uma onda de memórias falsas implantadas por gente maldosa nos cérebros fracos das senhoras (geralmente são senhoras) que lhes pagam as consultas.

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Todo o tempo do mundo

Não sei o que António Costa (e o PS) pretendem com estas conversas com o PCP e com o BE, nem me é muito importante saber. Curioso estou com a reunião marcada para amanhã com Passos Coelho e, presumo, Paulo Portas. Será o teste definitivo, último, da utilidade que resta a esta pobre III República para o bem comum. Se dali não sair um compromisso, de qualquer base ou incidência, que permita estabilidade a médio prazo na ação governativa então estes três, independentemente do grau de culpa de cada um, não servem para nada. Juntam-se à irrelevância do inquilino de Belém.

Não, não temos todo o tempo do mundo.

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O tempo esse grande escultor, como dizia a Marguerite Yourcenar

relógios

Gosto dos marcos que são as datas. Os anos – e às vezes até os meses – depois de determinado evento ajudam-me a arrumar o passado e a decidir o que vou reclamar do futuro (com o meu precioso labor, claro, que não há futuros grátis). As datas são boas para decidir o que é, afinal, perene na minha vida e o que já caducou. O que é motivo de undying satisfaction e o que não gera nada que não dissabores. Aquilo por que que o meu temperamento persistente vai continuar a disparar para todos os lados para proteger e obter e manter e aquilo por que já não me dou ao trabalho do ato mais mecanizado. Toda a gente garante com grande convicção que o tempo é o mais severo e certeiro juiz – e têm razão. Os livros bons são os que resistem ao tempo, os filmes idem, as ideias, as ideologias, a moda, as carteiras – tudo. Para mim o critério do tempo é sobretudo válido para as pessoas. Há as que estão e sempre estiveram e vão ficar para sempre. As que por magia aparecem sempre quando eu preciso. As que estiveram mas afinal não marcaram e misturaram-se na multidão. Há as surpresas que nos iluminam. E há as que, apesar de muitas promessas, never deliver – ou, como se ouve nos comentários desportivos, falham na concretização. E, pior, há as tóxicas que, de cada vez que calhamos aproximar-nos, lá temos inundação de agravos. Também há, claro, as indiferentes. Nada melhor que o tempo e os marcos do tempo para catalogar cada pessoa corretamente e, se necessário, arrumá-la definitivamente na prateleira mais alta da estante, junto dos livros que não nos arrebataram. Ou, pelo contrário, colocá-la nos livros de uso frequente que estão na mesa de cabeceira.

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É o que dá a falta de rega nas ideias e métodos do PS

rosa murcha

Conclui esta semana (depois de prolongadas suspeitas de várias doenças do foro psicológico) que as cabecinhas socialistas enlouqueceram de vez. Foi Ferro Rodrigues que veio afirmar candidamente que o PS defende mesmo de há quatro anos, mais mês menos mês da altura em que faliram o país. E foi o pré-programa (e mais sobre esta coisa dos pré-programas depois) do PS que vem afiançar-nos que a política que nos trouxe uma década de estagnação e, a seguir, bancarrota, é a mesma que nos vai fazer enriquecer em três tempos.

Como estão muito convencidos que os eleitores são burros de todo (e, bem, os eleitores votaram duas vezes em sócrates, pelo que já mostraram em tempos fraco discernimento), nem se dão ao trabalho de mudar qualquer coisa no discurso e nos métodos. Acham-nos tão patinhos que, apesar de já termos levado pancada à séria à conta das escolhas do PS, vamos continuar a querer levar pancada do PS – porque, todos sabemos, o mesmo discurso e os mesmos métodos levam às mesmas consequências.

Nas últimas eleições, o eleitor desencantado não se deu ao trabalho de abandonar os mais interessantes afazeres da sua vida para ir até à escola ou junta de freguesia para votar no PS. Nem com o incentivo de poder aparecer na tv (à entrada ou saída dos locais de voto) entregue às boas causas de salvar a paz no mundo, terminar a crise dos refugiados ou alimentar todas as crianças de África (com o voto, pois claro). Já tinha percebido (finalmente!) a inutilidade e futilidade e desonestidade do discurso do PS. E, da próxima vez, vai suceder exatamente o mesmo.

(As próximas eleições vão ser uma competição entre PS e coligação para ver qual dos blocos produziu menos desencantados.)

Mas o PS, aparentemente, pensa que acorreram todos a votar, esperançosos que o PS apoteoticamente desta vez estivesse à altura (do que quer que seja que o PS pode estar à altura). E que o eleitor continua entusiasmado como na primeira hora do pós santanismo. (Os egos insuflados são tramados.) Em suma: pelo PS ainda não perceberam que os encantos do PS e das suas propostas não são suficientes para cobrir tamanho manancial de burrice, estupidez e falta de respeito pelos eleitores.

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tragicomédia grega

Buddha in Wat Arun Thailand

Regressando aos amorzinhos gregos, que por estes dias andaram com a bazófia do costume ameaçando que fariam default aos pagamentos do empréstimo do FMI se a UE não enviasse mais daquela coisa que sócrates gosta muito para Atenas. (E como se ainda tivessem margem para ameaçar ou exigir o que seja.) A boa fé, a transparência, o respeito mútuo e a honestidade costumam ter sucesso quando se trata de negociar e não é possível conceber estratégia mais descabelada do que a grega desde que o syriza ganhou eleições. A única conclusão que se pode tirar é a de que quiseram hostilizar e insultar a outra parte. Toda a boa vontade, toda a paciência, todas as novas oportunidade e todos os gestos de, digamos, reconciliação por parte da UE foram recebidos com desprezo, ignorância e até má criação ostensiva. Isto tudo enquanto o governo grego mentia repetidamente e prometia as míticas – tão reais como o Minotauro – contrapartidas para novo empréstimo da UE que, oh que surpresa, nunca chegou a apresentar. Toda a gente vê isso.

E o mais risível nisto tudo é que o governo grego nem percebe que pela UE se está mais perto de se lhe dar estalos do que dinheiro. Que as opções benevolentes que eram oferecidas a Grécia há uns meses (quando a paciência – e o gosto geral na humanidade de não ser insultado – ainda não estavam esfrangalhados) já não estão disponíveis agora, porque a Grécia tem de provar muito mais que merece oportunidades (porque já deu cabo de tantas). Que ninguém acredita nas reedições das conversetas do costume (e nem se dão ao trabalho de variar o guião), porque se só proferiu mentiras e criou equívocos até agora, é evidente que comportamentos iguais aos anteriores serão filhos amantíssimos de novos equívocos e de novas mentiras e nem vale a pena a UE dar-se ao trabalho de lhes responder. Que só o facto de o governo grego agir como se não tivesse estado meses a insultar quem com eles negoceia, e aja como se as relações ainda fossem límpidas e distantes de mal entendidos, dá vontade de espetar alfinetes em qualquer grego que nos apareça à frente. E, por fim, que ninguém na UE vai correr o risco de dar nova oportunidade à Grécia para levar com igualmente nova dose de má criação e ser mais uma vez desprezada; que só vem nova oportunidade se houver clareza cristalina e se a Grécia der garantias explícitas (e aquelas alminhas nunca se cansam de fazer o contrário) de que histerias e ofensas não é o que se seguirá.

A comunicação social europeia, pelo seu lado, podia deixar de estar embasbacada com a proficiência de Varoufakis em teoria de jogos, como se tal especialidade lhe desse algum insight sobre forma de negociar. Teoria de jogos, posso garantir, é uma simplificação que de modo nenhum introduz a variável ‘natureza humana’. Era mais provável Varoufakis ser bem sucedido como especialista nas Quatro Nobres Verdades do budismo theravada.

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Diálogos de Morfeu

dialogues paradise

Para quem quiser ler algo verdadeiramente surreal à noite antes de ir dormir, a gerência da farmácia recomenda o Dialogues in Paradise da Can Xue (ou qualquer outro livro de contos da autora). São contos pequenos – e ainda bem porque não percebemos nada. (Tenho o romance Five Spice Street lá em casa (im)pacientemente a aguardar leitura na minha mesa de cabeceira, mas ainda não me decidi a lê-lo, que não sei se aguento duzentas páginas inteiras de incompreensões.) Com a Can Xue não ficamos seguros de ter entendido as metáforas. Quando pensamos que até compreendemos, sobram várias pontas soltas que não sabemos se estão lá por razões estilísticas se até têm algum significado – marginal ou, pior ainda, fulcral. Ficamos com a ideia de que há informação que não está dita – mas, hélas, humildemente reconhecemos que estamos à nora quanto a descobrir se a informação foi a autora que não deu (não pôde, quis malevolamente torturar os seus leitores adoráveis, whatever), se é a própria história que tem estes hiatos de informação ou se somos nós que deveríamos contribuir com alguma informação para o processo (um vislumbre ou outro da realidade chinesa, por exemplo). As perguntas que o nosso espírito vai colocando ao texto ficam invariavelmente e irritantemente sem resposta. E quando finalmente pensamos que estamos a perceber a Can Xue, de cada uma dessas vezes a autora troca-nos as voltas e lá reconhecemos que estamos no (desesperante) ponto inicial.

Este espesso véu de incompreensão não retira todo o fascínio à leitura mas, claro, cansa (algum dia, se calhar, de vez). A seguir a isto quase somos tentados a pegar num imbecil page turner do Ken Follet, onde tudo é óbvio e fácil e ganhamos saudades do mistério e da subtileza.

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