Bicos de Bunsen 2012 Acontecimento Nacional do Ano: a manifestação de 15 de Setembro

Escolhi para Acontecimento Nacional do Ano 2012 um fenómeno sociológico que entretanto foi convenientemente esquecido, pelas razões que adiantarei e por outras que os amáveis clientes desta Farmácia poderão adiantar em TPC: a manifestação de 15 de Setembro.

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É verdade que já tínhamos assistido a uma manifestação semelhante em 12 de Março de 2011, a da “geração à rasca”. Semelhante pela própria convocação pelas redes sociais, e semelhante por ter conseguido reunir famílias inteiras nas ruas de Lisboa. Mas na de 15 de Setembro surgiu uma nova característica: o motivo era um objectivo comum e todos eram chamados a participar. Esta universalidade da manifestação só se tinha visto realmente em 74, no 1º de Maio. Mas com uma diferença: desta vez não existia polarização política, podendo mesmo ser considerada pós-partidária.

As ruas das cidades do país encheram-se de pessoas comuns, de todas as idades e profissões. Numa originalidade muito portuguesa, a maioria sorri quando fotografada ou filmada. Todos avançam com as suas mensagens como se se reunissem num dia de festa. Esse encontro do grande grupo com uma preocupação comum dá-lhes ânimo, um conforto temporário.

manifestação «Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!»

A mobilização destas manifestações já não partiu da usual organização do sistema partidário, mas do cidadão enquanto cidadão, seja qual for a sua cultura de base, profissão, idade. A sua mobilização fugiu, assim, ao controle do sistema partidário. É essa a importância da manifestação de 15 de Setembro: é a primeira vez que se forma um espaço-tempo dos cidadãos, em que se pode ouvir a sua voz, saber a sua posição, perceber a sua recusa em continuar num caminho de destruição das suas vidas. É a primeira vez que se verifica a definição da fronteira do território dos cidadãos, a marcação desse território.

Por isso muitos tentaram reduzir o 15 de Setembro a uma reacção à TSU. A meu ver, é uma perspectiva redutora. A TSU pode ter dado o impulso final, mas os objectivos comuns eram vários e tendencialmente universais: uma opinião desfavorável relativamente à intervenção da troika, discordância do caminho dos cortes escolhido pelo governo e que afectam sempre os mesmos grupos, a ausência de perspectivas futuras para os mais jovens.

O sistema partidário treme com estas manifestações. Em primeiro lugar, procuram compreender o fenómeno, depois procuram identificar os seus promotores. Não percebem que o pormenor menos importante está em quem promove, mas nos motivos que levam pessoas que nunca se manifestam a ir para a rua com a família. O sistema partidário quer acima de tudo evitar perder a legitimidade da representação que lhes confere o poder. Estes fenómenos pós-partidários assusta-os. Temem que destas manifestações surjam movimentos cívicos a reclamar espaço e poder político.

Os próprios sindicatos não gostam de perder o controle destas “formas de luta”, a razão da sua existência. A sua lógica cultural é muito semelhante à dos partidos, é corporativa, territorial. Por isso vimos, na sequência desta manifestação, a marcação de outras, com palavras de ordem e apelos a greves. E tudo volta ao normal.

15 de Setembro foi especial porque foi um segundo ensaio da cidadania responsável e a sua percepção da realidade. Se todos quiserem, também pode ser o primeiro passo para construir, em conjunto, um outro caminho que inclua uma cultura democrática: gestão responsável, compromissos com os cidadãos, economia saudável e equilíbrio social.

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