Yu Hua revisited

cries drizzle

A propósito de uma conversa sobre filmes e livros chineses, fiquei a pensar no Cries in the Drizzle, do meu querido Yu Hua, que foi talvez o livro mais bonito que li nos últimos anos. E um tudo nada diferente dos outros livros do autor. Está a anos luz do Brothers (que adapta a forma literária à vulgaridade da China atual da procura do sucesso material e a ostentação de poder económico – que geralmente inclui algumas concubinas da nova era). E mesmo do To Live, história do infortúnio repetido de um homem e da sua família, afasta-se por esta ausência da calamidade inevitável à espreita (apesar de haver calamidades em abundância no Cries in the Drizzle) e pela recusa deste retrato burlesco da história recente chinesa do To Live. Cries in the Drizzle percorre a Revolução Cultural sem que se dê grandemente por ela no livro. Não é uma sátira política (como To Live) nem uma sátira social (como Brothers). (E evidentemente também não é um livro de contos nem de ensaios – como outros de Yu Hua. E não li o Chronicles of a Blood Merchant nem o último Diqitian.)

É a história de uma rapaz – melhor: muitas histórias de um rapaz, contadas como se sem nexo – e são, parece-me, muito verdadeiras para com os chineses. Há a história do casal que acolhe e ama incondicionalmente o rapaz – e cujo amor é a redenção de todas as outras relações áridas e daninhas da sua infância e adolescência e o pilar emocional do homem citadino que o rapaz cresce para ser. Mas há também a história da negligência da família, o ódio do pai e a maldade de muitas personagens que sugerem ao rapaz a existência de afeto e que terminam – menos o referido casal – por rejeitá-lo, às vezes orgulhosamente, quando o rapaz já contava com esse afeto. A lição, dada em prosa quase poética, ainda que com sentido de humor: ao lado da maldade e da desafeição, há a redenção.

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Leituras maoístas

Como me interessa muito a mim – e tenho a bondade de supor que todos os leitores do Farmácia terão igualmente interesse tão assisado – a forma como a personalidade dos líderes políticos influencia a sua liderança (e como ando enredada no clímax do maoísmo que foi a Revolução Cultural chinesa), deixo aqui algumas sugestões que cruzam Mao homem com o Mao criatura política toda-poderosa na China (ou, mais acertado: debatendo-se campanha devastadora atrás de campanha devastadora para continuar a ser todo-poderoso).

lucia pyeMao Tse-Tung, The Man in the Leader, de Lucian W. Pye

dittmer

Aging and Political Leadership, ed. por Angus McIntire, com um capítulo de Lowell Dittmer sobre Mao.

mao jon spence

Mao Zedong, de Jonathan Spence, um livro pequeno (e com muitas falhas e omissões quem sabe se por isso) sobre Mao, mas que dá uma perspetiva curiosa (talvez demasiado benigna, ou talvez ainda sem algumas informações que os historiadores foram dando a conhecer ao mundo sobre Mao nos últimos anos) sobre a sua personalidade. A propósito do ressentimento de Mao para com os intelectuais que referi no post anterior, ofereço-vos duas citações (as traduções são minhas) do Mao de Spence.

«[E]le considerou os intelectuais de Pequim distantes e dando-se muita importância: ‘Eu tentava iniciar conversa com eles de assuntos políticos e culturais, mas eles eram muito ocupados. Não tinham tempo para um bibliotecário assistente que falava o dialecto do Sul.’» (p.34)

«Do ponto de vista marxista-leninista, dizia Mao, ‘muitos dos ditos intelectuais são de facto inexcedivelmente pouco educados’ e têm de perceber que ‘o conhecimento dos trabalhadores e camponeses é por vezes maior do que o deles’. Era um sentido de humildade que Mao recomendava que os seus ouvintes educados deviam cultivar.» (p.99)

E saindo do universo dos livros académicos, há também Mao, The Unknown Story, de Jung Chang (ou, em pinyin, Rong Zhang) e Jon Halliday, que tem como alfa e ómega a diabolização de Mao.

mao jung chang

Se quiserem ler as informações do livro acima em modo romance policial – bem como as constantes no livro do médico de Mao, Li Zhisui (que Jonathan Spence e vários outros historiadores usam como fonte) – podem escolher The Mao Case, de Qiu Xiaolong.

mao case qiu

O enredo policial é, como sempre, quase pueril. Mas (como sempre) os livros de Qiu Xiaolong valem pela descrição da China atual – os jogos de poder, a política que escancara todos os recantos das vidas chinesas, a ambivalência atual sobre a herança de Mao e a relação problemática da China com o seu passado, o fascínio chinês pela ostentação de riqueza e sexo. E, também muito interessante, as simultâneas lealdade e repulsa para com a China do autor (que é inteiramente transmitida para as histórias), que é um dos overseas chinese que abandonou a China pelos Estados Unidos depois de 1989.

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A vingança serve-se num samovar

Parece que Putin anda a ceder à velha tentação de ditadores (e proto-ditadores e – tanto quanto os deixam, que é mais ou menos os jornalistas publicitarem todas as insanidades que dizem – presidentes socialistas, laicos e republicanos): o culto da (sua própria) personalidade. Já tem até exposição mostrando Putin como o novo Hércules, um enternecedor presente de aniversário de fãs anónimos (cof, cof, cof) do facebook.

Pegando nisto, o que tem piada (bem, para quem está a milhares de quilómetros) na questão ucraniana (e no modo estridente como geralmente coloca a Rússia no meio das relações entre nações) é que está, da parte de Putin, pejadinha de natureza humana. Ora é a anexação da Crimeia como a longamente aguardada (pelo próprio) vingança de Putin pelos bombardeamentos americanos no Kosovo (que aparentemente não bastou a humilhação de um néscio Obama aquando do uso de armas químicas pela Síria), ora é o jogo de desencontros a que o desconcertante Putin tem obrigado os Estados Unidos e a UE.

(Aqui no meio de outros assuntos refira-se que os tiranos e os tiranos wannabe costumam ser dados à vingança. Mao também passou grande parte da sua vida no pós 1949, como presidente do PCC e, durante algum tempo também da China, perseguindo os intelectuais chineses, mesmo os afetos ao PCC. A principal razão das perseguições: nos anos 20 os intelectuais comunistas de Pequim não aceitavam o provinciano e pouco estudado Mao como um deles e Mao nunca lhes perdoou tal sentimento de superioridade.)

Vejamos. É a afirmação – às vezes expressa outras vezes apenas sugerida, assim ao estilo dos monarcas absolutos que se divertiam a indicar quem estava em favor e quem estava em desgraça através de subtilezas só percetíveis aos olhos dos cortesãos sedentos de atenções reais – de que se pretende paz e respeito pela autonomia das nações, quando os atos mostram um Putin inteiramente desinteressado daquilo que expressa ou sugere interessar-se. A defesa da estratégia de poder pessoal de Putin (mais do que a defesa dos interesses russos) é o seu único objetivo.

É a recusa de uma comunicação franca e aberta com os interlocutores ocidentais, sendo que a comunicação por meios dúbios e sobressaltados leva inevitavelmente a mal entendidos e a confusões (que são seguramente desejados por Putin). Mal entendidos porque a posição e as pretensões russas nunca são inteiramente afirmadas, de forma a que os interlocutores nunca saibam bem o terreno que pisam. Mal entendidos porque se atribui à Rússia uma vontade de paz que não existe, o que se leva a que se interprete com demasiada benevolência os atos e palavras de Putin. E mal entendidos porque a própria forma de comunicação é prenhe de ocasiões para gerar as ditas confusões (colocarem-se os separatistas ucranianos negociando como se não fossem marionetas de Moscovo, por exemplo).

E perante todos os mal entendidos e os imbróglios criados, e ainda perante todas as oportunidades que foram oferecidas à Rússia para deixar de ser belicosa (e TODAS Putin fez questão de rejeitar – desde logo com o desinteresse em incentivar Assad a entregar todas as armas químicas), a mensagem de Putin aos EUA e UE continua a ser o bluff ‘keep trying again and again, que eu tenho gás natural e petróleo que tanto precisam’. Quando, claro, a UE e os EUA já estão fartos de pagar para ver.

A UE e os EUA não estão isentos de culpas na questão ucraniana, desde logo por considerarem sagradas as fronteiras de um país que foi uma criação feita a olho no fim da primeira guerra mundial – e, no caso da Crimeia, ter sido uma oferta russa de há sessenta anos – e que terá inúmeros problemas separatistas e de animosidades regionais se permanecer intocado. (Os europeus divertiram-se a desenhar fronteiras aleatórias por quase todos os continentes e parecem ainda não ter dado conta que o resultado não foi feliz e que não vale a pena persistir no erro.) E muito certamente não vale a pena começar uma guerra com a Rússia por causa da Ucrânia. Mas também não é necessário nem aconselhável continuarmos como patinhos a contribuir para a estratégia de engrandecimento do ego de Putin. Putin pode bem, se quiser, tomar a iniciativa de apaziguar as posições extremadas de todo o mundo. Esperemos sentados.

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O endorsement que faltava

umbrella rev3Informa-se que este blogue apoia a umbrella revolution.

Aqui dois textos do South China Morning Post (que, helas, com grande falta de sentido poético – e burlesco – mantém o nome de Occupy Central ao movimento de estudantes – apoiado pelo resto da população). E, para quem quiser ir lendo o que se vai escrevendo, o twitter do China Beat vai colocando textos curiosos.

(Porque eu não duro sempre, informa-se que o edifício – lindo de morrer – que aparece ao longe na foto com triângulos iluminados, é o Bank of China e foi durante muitos anos o edifício mais alto de Hong Kong. E esta visão noturna do BoC é um must de HK para mim, que percorria sempre depois de jantar o passeio ao longo do Victoria Harbour no Tsim Sha Tsui – do lado oposto da foto, portanto – quando estava por lá.)

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Farmácia Central nos Cuidados Intensivos

John Kerry Secretary of State

Numa tentativa desesperada de, à 25ª hora, reanimar este querido blogue moribundo – ou, se já for tarde de mais para tal, pelo menos torná-lo num blogue zombie razoavelmente ativo – fiz um facelift ao layout do Farmácia, adicionei-lhe uma pitada de roxo (que faz sempre falta) e cá venho cumprir a minha obrigação de postar.

Podia (porque este blogue desde o início se rendeu – isto para dar a ideia, falsa, de que se debateu na tentativa de resistir a tal outcome – às futilidades), colocar aqui um texto, ao qual acrescentaria as minhas pertinentes observações, sobre sapatos e carteiras. Para dar um ar literato ao post lá referiria no meio aquela afirmação que Virginia Woolf faz no Mrs Dalloway (por interposta personagem) de que uma senhora se distingue pelos sapatos e pelas luvas. Eu até diria que pelos sapatos se distingue quase tudo sobre uma mulher. Quanto às luvas, estou com as minhas dúvidas. Eu própria já fui bastante adepta de luvas (se calhar porque dantes viajava com mais frequência para climas enregelados durante o inverno) e cheguei a ter uma coleção das ditas bastante fancy (da qual ainda usufruo a espaços em que tenho tal necessidade). Mas não estou inteiramente certa que me possam avaliar pelas minhas luvas. Não tenho nenhum par roxo, por exemplo (tenho um rosa forte, outro encarnado, outro laranja e os restantes são pretos). Sobretudo, notaria a ascensão das carteiras, desconsideradas no pós Grande Guerra e agora o clímax dos acessórios femininos.

Mas não. Escolho trazer-vos um texto sobre John Kerry, o inepto secretary of state de Obama, da Vogue de Outubro (que ainda não recebi no correio, mais uns dias e vou reclamar). Se está a torcer o nariz pela escolha da Vogue para temas políticos, fique a saber que ou é do Bloco de Esquerda ou um imperdoável ignorante (se o leitor me permitir o insulto), porque a Vogue é conhecida por peças magistrais sobre políticos seminais. Foi na Vogue, no ano passado, que Obama & wife se prestaram à mais magistral peça de propaganda dos últimos tempos no hemisfério norte, e há pouco tempo foi Rand Paul o objeto de tão glomouroso escrutínio – isto para ficarmos por dois exemplos, entre muitos.

Aqui vos deixo o perfeito democrata. Não precisam de agradecer as gargalhadas.

«Having come from the seventieth-anniversary commemorations of the Normandy invasion, Kerry, 70 himself and slender as the Tin Man, is dressed in a midnight-blue suit and a pink-orange tie, his dense, graying hair as immovable as ever. He glances toward the windswept Brittany coastline and then at the crowds trailing his convoy, eager to see an eminent American so intimately connected with their village give a speech about the war. [...]

The summer will bring a cascading and surreal series of international crises, which keeps him constantly on the move. Rarely a day goes by without shocking and terrifying news: a fierce election dispute in Afghanistan that threatens to bring the country to civil war; the downing of a Malaysia Airlines jetliner in Ukraine; a deadly conflict between Israel and Hamas; the advance across Iraq of the jihadist group ISIS, on whom President Obama authorizes air strikes in mid-August.

During this jolting period Kerry will seem to be everywhere at once, engaging in negotiations, jousting with his foreign counterparts, and struggling to pull off small victories before jumping back on his plane.“I don’t think there has ever been a Secretary of State who has thrown himself into the job with as much verve and conviction as this guy has,” says Strobe Talbott, a deputy Secretary of State under President Clinton and now the president of the Washington think tank the Brookings Institution as well as a Kerry adviser. “If he can’t get a workable and acceptable compromise on a dispute, it’s very hard to imagine anybody who can.”»

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Crítica Cinéfila.

Depois de uns longos cinco meses sem Crítica Cinéfila com igual escassez de idas ao cinema (toda a gente sabe que nos últimos meses do ano os filmes que estreiam não ficarão certamente conhecidos pela sua qualidade), voltamos hoje, mais uma vez, com a nossa “famosa” Crítica.

E assim sendo o escolhido de ontem foi o 12 Anos Escravo (12 Years a Slave), 2013. Filme de Steve McQueen com Chiwetel Ejiofor, Dwight Henry, Kelsey Scott, Michael Fassbender e Brad Pitt entre outros.

http://www.imdb.com/title/tt2024544/?ref_=nv_sr_1

O filme retrata os anos de escravatura no Sul dos Estados Unidos e conta a história de um homem negro, pai de família (livre e abastado), que um dia é raptado e, na impossibilidade de provar a sua origem, é vendido como escravo e assim vive durante 12 anos. De referir ainda que o filme é baseado em factos verídicos…

Começo por dizer que provavelmente nunca tinha saído de uma sala de cinema tão “incomodado”… Toda a audiência saiu da sala literalmente em silêncio, com um fortíssimo nó no estômago!!! O filme é muito bom, certamente, e conta com (pelo menos) duas MAGNÍFICAS interpretações: Chiwetel Ejiofor (o “escravo”) e Michael Fassbender (o sádico/psicopata dono do “escravo”). Fassbender tem uma interpretação assombrosa, as feições dele transfiguram-se de maldade e sadismo nas cenas mais violentas.

Mas como não há bela sem senão também tenho uma crítica negativa: Na minha opinião o filme é “demasiado comercial”, ou seja, é daqueles filmes que são feitos literalmente para ganhar Óscares (e vai ganhá-los com certeza!!!). Toda a gente sabe que sexo + violência + temática polémica/sensível = Óscares!!! E se a esta “receita” juntarmos algum nome sonante (neste caso claramente Brad Pitt) então não há mesmo que enganar, venham os Óscares… Para além disso, sem qualquer sombra de dúvida, as cenas de violência são demasiado longas e demasiado explícitas, claramente excessivas!!!

Posto isto continua a ser um filme a não perder, pelo menos para os menos impressionáveis. Quanto aos outros aconselho alguma “mentalização prévia”… Mas vamos ter Óscares com certeza!!!

…When everything is lost, there is nothing else to lose. Uma citação que pode resumir todo o filme…

Bom filme!!!

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Merry Christmas aos fregueses da farmácia

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