Ouvir os recadinhos dominicais do Prof. Marcelo não contribui para recuperar a nossa vitalidade perdida, nem manter a sanidade mental, nem sequer para cultivar a alegria possível, mas é um exercício que se revela útil sempre que a intriga jornalística segue um qualquer filão.
É certo que o jornalismo caseiro e o comentadorismo nacional já perderam qualquer credibilidade, pelo menos para quem observa à distância e procura ver o grande plano: a lógica do poder em exercício, interesses em conflito, a agitação das elites mediáticas, etc.
O exercício de hoje é muito simples: de quem são os calos que o governo anda a pisar? Querem ver?
Nas perguntas ao Prof. Marcelo sobre a prestação do governo, os ministros já estavam divididos artificialmente em pacotes:
- o pacote PM;
- o pacote o ministro mais experiente como político;
- o pacote dos mais visíveis;
- o pacote dos invisíveis;
- o pacote das mulheres;
- o pacote dos descartáveis.
Esta escolha por pacotes de ministros já de si não é nada inocente. Poderiam até ter disfarçado, não acham? Meter um dos descartáveis num dos outros pacotes. No dos invisíveis, por exemplo. E o outro no pacote dos mais visíveis. Mas não. Assim sem mais nem menos, o último pacote ficou ali pendurado na ponta final para lhe pegar e concluir: remodelação do governo. Nem mais.
Resumo dos recadinhos do Prof. Marcelo:
- demitir o ministro da Comunicação Social, ou esperar que se demita;
- remodelar o governo para substituir o ministro da Economia.
Com que argumentos? Um porque não soube gerir a relação com os jornalistas e ainda não conseguiu privatizar a RTP. Além disso, caíram-lhe uns pingos de suspeita em cima e depois disso já não há hipótese de se limpar. O outro porque demorou muito tempo a conhecer o país e quando conhecer, está de saída. Brilhante análise. Nada sobre o que o ministro fez até agora na pasta da Economia, onde mexeu, onde vai mexer.
Pergunta do cidadão comum atento: de quem são os calos que estes dois ministros andam a pisar?
O que alguém ainda não percebeu (e precisávamos de um Gil Vicente para lhe mostrar através de uma peça exemplificativa) é que neste momento o cidadão comum vai começar a pesar na sua fórmula, queira ou não queira. As excepções de estimação têm os dias contados. O cidadão comum não vai querer continuar a sustentar:
- RTP;
- empresas públicas mal geridas;
- monopólios empresariais;
- fundações conhecidas e fundações-fantasma;
- metade dos deputados na AR e gabinetes de assessores para isto e para aquilo;
- organismos e corpúsculos vários à sombra do contribuinte;
- contas mal feitas, contratos ruinosos, negociatas manhosas, etc. etc.
Portanto, a intriga nacional para manipular remodelações convenientes é uma estratégia que tem os dias contados. No final desta telenovela, alguém vai perceber isso. E já agora, se o cidadão comum emigra, alguém pode seguir o mesmo caminho. Ir intrigar para outro lado.


